Um renomado paleobiólogo americano anda animado com a
possibilidade de procurar fósseis de formas de vida antigas em rochas
marcianas. Mas primeiro, claro, será preciso trazer essas pedras de lá.
Em tese, esse veio mineral de gipso fotografado pelo jipe Opportunity em solo marciano poderia conter fósseis.
J. William Schopf, pesquisador da Universidade da Califórnia em Los
Angeles, apresentou suas ambições em palestra proferida na última
sexta-feira, durante o Primeiro Encontro de Astrobiologia e
Paleobiologia promovido pelo Instituto de Geociências da USP.
“Ainda estamos discutindo questões de segurança, como de que maneira
trazer essas rochas para a Terra sem correr o risco de contaminá-la com
os terríveis germes marcianos que supostamente vão matar todo mundo, o
que tem tomado bastante do nosso tempo”, ironiza o cientista,
referindo-se às preocupações da Nasa, talvez excessivamente zelosas, de
como lidar com amostras com potencial biológico trazidas de outros
mundos. “Mas vai acontecer. Nos próximos 20 anos, certamente vai
acontecer.”
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Calma lá. Para que uma missão robótica capaz de trazer amostras de
Marte possa mesmo ser bem-sucedida, antes será preciso determinar que
tipo de rocha deve ser trazida de lá. Schopf sugere que deveríamos
procurar, imagine você, amostras de gesso marciano.
Soa estranho, eu sei. Afinal, quando falamos de gesso, pensamos no
material de construção, não no mineral de que ele é feito, o gipso. Mas
resultados obtidos por sondas tanto em órbita de Marte como no solo
mostram que há considerável presença de gipso no planeta vermelho. E o
que talvez seja mais interessante: esse material é formado através de
deposição por água.
Portanto, ao trazer gesso de Marte, teremos em mãos uma rocha
sedimentar (ou seja, formada por camadas depositadas sucessivamente,
ideal para a preservação de fósseis) que foi produzida na época em que
Marte ainda era um planeta molhado, como a Terra.
TESTE PRÁTICO
Para confirmar que essa é mesmo uma boa ideia, Schopf conduziu
recentemente uma espécie de projeto-piloto, procurando fósseis antigos
em gesso terrestre — uma atividade que havia sido até então
negligenciada pelos paleontólogos. E aí, em 2012, veio a boa notícia:
ele encontrou micróbios fossilizados em diversas amostras espalhadas
pelo mundo, em bom estado de preservação!
O paleobiólogo aponta que há hoje boas tecnologias, que ele mesmo
ajudou a desenvolver, para fazer a caracterização dos potenciais fósseis
marcianos, assim que eles sejam trazidos para a Terra.
Entre elas, está a microscopia de escaneamento de laser confocal
(CLSM, na sigla inglesa), que funciona quase como uma “visão de raio X”
para enxergar o interior da rocha, permitindo identificar a forma
tridimensional do fóssil sem precisar danificar a amostra.
De forma complementar, uma outra técnica conhecida como
espectroscopia Raman permite identificar a composição química do fóssil,
confirmando que sua origem é de fato orgânica.
“Certamente quando tivermos as amostras de Marte teremos outros
instrumentos ainda mais sofisticados para analisá-las, mas, se as
obtivéssemos hoje, essas seriam as técnicas que usaríamos”, diz.
E O QUE TEM PARA HOJE?
A essa altura, você talvez já tenha se lembrado de que na verdade já
possuímos algumas amostras que vieram de Marte — meteoritos ejetados da
superfície do planeta vermelho após um impacto de asteroide que acabaram
caindo aqui, após milhões de anos viajando pelo espaço interplanetário.
O mais famoso deles é uma pedra conhecida pela sigla ALH 84001, que
atingiu o estrelato em 1996, quando a Nasa fez alvoroço ao dizer que ele
continha sinais de vida marciana de 4 bilhões de anos (hoje o consenso
científico é de que esses traços não consistem evidência conclusiva de
vida extraterrestre, e Schopf foi um dos mais ferrenhos críticos do
estudo original).
Esta
imagem microscópica do meteorito ALH 84001 não contém sinais de vida
marciana, segundo Schopf. As estruturas seriam pequenas demais, segundo
ele.
O problema com todos eles, segundo Schopf, é que são as rochas
erradas para procurar vida — em geral pedras formadas pelo resfriamento
de lava resultante de erupções vulcânicas, conhecidas como rochas
ígneas. Precisamos mesmo de rochas sedimentares, mas não é o tipo de
pedra que encontraremos em bólidos que resistem desprotegidos à
violência da entrada na atmosfera terrestre. “Rochas sedimentares são
frágeis, elas fazem péssimos meteoritos”, disse o pesquisador americano
ao
Mensageiro Sideral.
Moral da história: precisamos mandar um robô até Marte colher as
rochas certas e enviá-las de volta, em segurança, para os laboratórios
na Terra. Americanos, europeus e russos já manifestaram interesse numa
missão desse tipo, mas nenhuma agência espacial tem no momento um plano
concreto para executá-la. Contudo, as coisas tendem a esquentar nos
próximos anos. A ESA (agência espacial europeia) está para conduzir duas
missões de busca por sinais de vida em Marte, em 2016 e 2018, e
resultados intrigantes podem acelerar o interesse em preparar uma
iniciativa de retorno de amostras.
Schopf torce, ansioso, para ainda estar na ativa quando isso tudo acontecer. A busca por vida extraterrestre continua!
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